07/08/2008

Underwater

Fechou os olhos e deixou que a água quente que jorrava da torneira percorresse cada milímetro do seu corpo. Sentia o nível da água a subir, dentro da banheira. Precisava de limpar o corpo, como se a água pudesse, também, apagar a sujidade que sentia na mente.

A água queimava-a. Mas ela não se importava. Estava a sentir um certo prazer naquela dor. Merecia aquela dor. Não era melhor que ninguém e aquela sensação de quente excessivo lembrava-a que era apenas humana. Que errava como os humanos. Que fazia asneiras como os humanos.

O nível da água continuava a subir. Chegava aos ombros como um abraço. E quão insuportável estava aquela água?! Mas um abraço daqueles apertados... um daqueles de que nos queremos ver livres rapidamente, porque nos cortam a respiração e nos fazem sentir prisioneiros. Queria chorar, mas tinha gasto todas as lágrimas nesse dia.

A água já chegava à boca. Desligou a torneira e deixou-se estar. Susteve a respiração e mergulhou a cabeça até não aguentar sequer mais um segundo sem se libertar.

Deixou-se ficar. A água começava a tornar-se suportável. Manteve-se de olhos bem fechados, a sentir a sua própria pulsação... a mente viajava para longe de tudo e todos. Como não podia desaparecer, dava-se ao luxo de se abstrair. De fugir, mesmo que por breves momentos.

A água continuava quente. Começou a chorar. Finalmente, libertou-se.

A água quente aliviava-lhe as dores do corpo, e as lágrimas aliviavam-lhe dores bem mais fortes e que nenhum comprimido faria passar.

Passou, energicamente, o sabonete (com cheiro a rosas) pelo corpo. Esfregou, por três vezes, champô na cabeça. Saiu do banho, esvaziou a banheira e viu as lágrimas a descerem pelo cano. Estava pronta.

13 comentários:

Nuno disse...

Tomar banho com água morna sim, com água quente (quase a ferver) é que não! Nem no Inverno!!!

Beijinho,
Nuno.

Francisco disse...

Vagueou lentamente pelas veredas da finitude dos recomeços, quando o tudo e o nada se encontram e mostram a face do meio termo. "não te amo, quero-te", pensou, como que à espera de que no espelho se desenhasse o meio da ponte e assim pudesse dizer "é aqui onde estás, o meu coração mora do outro lado".
Estava pronta, até ao próximo recomeço.

Cristina disse...

Nuno, a água a ferver limpa as impurezas... :)

Beijo

Cristina disse...

Francisco, e o que acontece quando, na encruzilhada, sentimos que estamos do lado certo da margem, mas a ponte apresenta-se como uma barreira?!

Francisco disse...

Só a "protagonista" do teu texto pode responder a essa pergunta...

Cristina disse...

Eu sei.

Requiem disse...

Explica-me lá...se estás na margem certa, para que precisas tu de uma ponte?

E mesmo que queiras passar para a outra margem...vai a nado! Pode demorar mais tempo, mas com jeito chegas lá.

Cristina disse...

Cenas de gaja, Requiem ;)

NI disse...

Até assusta o quanto somos parecidas.
Beijos

eremita disse...

Porra, gostei disto.

Cristina disse...

Ni, gosto de "culpar" o nosso signo :)

Eremita, obrigada! :)

Beijos

NI disse...

Ahahahahaha, essa, minha querida, tem direitos de autor.

Bjs

Cristina disse...

Aprendi contigo, querida :))))