17/09/2008

Cheiro a mar

Já tentei escrever um livro. Daí resultou um rascunho mal amanhado do qual até tenho vergonha. Tentei. A sério que tentei. 

Comecei por "Era uma vez..." e escrevi no fim "... e viveram felizes para sempre". Faltava-me o conteúdo do meio. Fechei os olhos com força e tentei imaginar o que me faria viver feliz para sempre. Imaginei o teu beijo. Imaginei o teu sabor. Imaginei o teu cheiro. Cheiravas a mar. 

Abri os olhos e escrevi "Era uma vez um menino que cheirava a mar. Um belo dia, acordou bem cedo e olhou pela janela. Só viu prédios à sua frente... que decepção!". Uma decepção numa história de amor? Não, isso não. Risquei. "Era uma vez um menino que cheirava a mar. Um belo dia, enquanto passeava pela cidade, sem querer deu um pontapé numa carteira. Numa carteira de menina. Abriu e viu a fotografia da menina. Ó que coisa mais linda!, pensou ele. E depois partiu em busca da menina". 

Depois tudo aquilo me pareceu muito linear. Que menino se apaixonava por uma fotografia? Voltei a fechar os olhos. De novo, com muita força. Sem querer, adormeci. E sonhei com fadas e princesas, dragões e torres muito altas. Voltei a ser menina.

Acho que me tornei a menina da história. A menina que perdera a carteira, enquanto regressava da praia. A menina por quem o menino se apaixonara. E pareceu-me bem.

Acordei e voltei a escrever. “O menino decidiu ir entregar a carteira na polícia”. Na polícia?? Os contos de fada não têm polícias. Têm dragões e têm valentes lenhadores. Ah, e príncipes também. Risquei tudinho. E comecei de novo. Desta vez, no computador.

“Ele acordou. Não se lembrava como tinha sido a noite anterior. Mas a tranquila respiração dela provava que tinha sido boa. Olhou de novo. Os cabelos revoltos deixavam ver um rosto de anjo. Aproximou-se do pescoço dela, para a voltar a beijar. Cheirava a mar. E de repente, tudo fez sentido”.

Achei que estava bom. Fiz “Guardar Como...” e salvei com o título “Cheiro a mar”.

5 comentários:

Fernando Pessoa disse...

e a que cheiram os "cabelos revoltos de um anjo"?

fresca e airosa. uma história que se respira bem.

Cristina disse...

Fernando Pessoa, cheiram àquilo que a tua imaginação permitir. :)

Obrigada!

Beijinho

shiuuuu disse...

Já experimentaste berrar num quarto escuro onde todos te ouvem, mas ninguém te vê?

Então convido-te a participares e aceitares o desafio do Shiuuuu...

Cristina disse...

Ó Shiuuuu, tanto que eu tinha que contar... :)

Beijinho e continuem o belo trabalho

Pollykc disse...

este post está demais...
Lembro-me que em tempos comecei um pseudo-livro com uma amiga... A ideia era que cada uma escrevesse algumas linhas n1 documento. Este devia ser passado entre as 2 para a historia ir crescendo...
Era uma obra engraçada, que contava a nossa própria história, mas claro... com muita ficção à mistura... Amores e desamores, estava lá tudo...
Pena que o tempo tenha passado, e a minha obra literária a meias se tenha perdido no tempo!