08/07/2008

Foda-se

Começo por pedir desculpa. Sabem que não é meu hábito praguejar. Mas desta vez teve de ser. Há coisas difíceis de engolir e mesmo passados 4 dias ainda não esqueci aquele rosto.

Sexta-feira, no Porto... plena Avenida dos Aliados. O tempo estava carregado, o sol há muito não se via, as nuvens cinzentas ameaçavam chuva a qualquer instante. Eu tinha chegado à cidade há pouquinho tempo; tinha ido à pensão largar a mala e voltei a sair para lanchar. Perto do McDonald's, estava um senhor de alguma idade, encostado a uma parede, com a mão no peito... quase a chorar. Respirava com dificuldade. Centenas de pessoas naquela maldita rua e ninguém olhava para ele. Ou se olhavam, nada faziam.

Aproximei-me.

«O senhor sente-se bem?»
«Não, minha filha. Não estou nada bem. Vim agora da quimioterapia no IPO.»
«Lamento. Precisa de ajuda? Quer que o ajude a ir a algum lado? Posso chamar alguém...»
«Não tenho ninguém, filha. Sou viúvo e só tenho o meu cão por companhia nestes meus últimos dias. Não tenho dinheiro para nada e só peço a Deus que me ajude a passar a ponte, porque vivo para lá do Monte da Virgem, mas vai. Vai em paz! E obrigado!»

Foda-se. Não esqueço aquela cara. Aquele ar sofrido. Penso nisso e podia ter feito mais. Podia ter chamado um táxi e metido o velhote lá dentro, por minha conta. Foda-se. Podia ter feito mais e melhor. Foda-se para a indiferença das pessoas que passavam por ele e nada faziam. Não o esqueço!

5 comentários:

SílviA disse...

Fiquei com as lágrimas nos olhos ao ler-te.

Podia aqui contar imensas histórias sobre ajudar alguém, mas o momento é teu. O facto de perguntares significou muito com toda a certeza.

Beijinho

Fernando Pessoa disse...

parabéns.

acho que a cada dia que passa nos sentimos mais abstraídos e indiferentes.

Cristina disse...

Sílvia, mas e depois de também eu ter ido embora? Como terá ficado o homem?

Fernando Pessoa, tenho a mesma opinião... deixamo-nos ir com a multidão. Confundimo-nos com ela e nem olhamos, sequer, de relance, para o lado.

Beijos

Victor Cardoso disse...

Todos podiamos ter feito SEMPRE mais, mesmo quando o que fizemos foi muito.
Ter perguntado, e ter falado, foi o muito do nada que ninguém fez.
Tenho a certeza que ele também não a esquecerá.
(descobri hoje este blog e vou voltar sempre, se me permitir)

Cristina disse...

Olá Victor. Quero-me convencer que fiz o melhor. Não me ia perdoar nunca se também tivesse passado ao largo!